Alguém sabe que fim levou o monstro que aterrorizou o Brasil nos anos 90???
Eu sei!!!
Ele apareceu lá prás bandas do meu sítio, na região de Piedade, Ibiúna e Sorocaba.
Como lá existem muitos criadores de caprinos e ovinos, como eu, fizemos uma grande armadilha, financiada pela União de Criadores, e conseguimos prender o bicho.
Como ele chupou só sangue de muitas cabras doentes e infectadas por morcegos, foi se transformando no Coisa Ruim, Bode-Véio, Cramunhão, com aqueles enormes pés de bode peludos e de feições aterradoras e de insuportável cheiro ocre misturado com aquela remela amarelada de arsênico. A fumaça de suas ventas tinha cheiro de pólvora queimada e quando se esforçava, emitia flatulências (peidava ruidosamente) insuportáveis. Podem vocês imaginar o trabalhão que o bicho deu. Depois de dominado, demos-lhe um bom banho de creolina e sabão à base de soda cáustica, acorrentamos o danado em uma gruta lá nas bandas da Serra do Paranapiacaba, onde nasce o Paranapanema.
Começamos a fazer um tratamento com sangue só de ovelha jovem (marrãs) e leite de cabra. Aos poucos fomos reduzindo o sangue, até que o bicho se adaptou só com o leite. Agora estamos usando-o como reprodutor em cruzamento com cabras Boer, com excelentes resultados. As cabras até que suportaram bem a monta. Agora pensamos em inseminação artificial. Existe um empresa da Austrália que está pagando um montão para adquirir o sêmem do bicho.
O Problema está em como tirar esse produto, pois o bicho ainda é meio bravo. Estão procurando pessoas dipostas a fazer com que o bicho colabore mais, mas não aparece um cidadão disposto. E olha que pagamos bem, ou seja com participação nos lucros garantidos de tal empreendimento.
Outro dia ele ficou meio adoentado, coitado, mas com aplicação diária de um pouco de óleo diesel na veia (20ml), foi melhorando. Como efeito colateral começou a soltar também fogo pelas ventas, aí, com aquela mistura de pólvora, podem bem imaginar o quão difícil foi curá-lo. Agora tá passando bem e não deixamos ninguém saber dessa recaída, para não prejudicar nossos negócios.
Estamos também testando cruzamento com ovelhas da raça Santa Inês, deslanada. Já é pai de um Chabingo (cruza de cabra c/ ovelha) até bonitinho o bichinho, porém constatamos que é estéril. Se der certo essa experiência, acho que vamos ganhar muito dinheiro com esse bicho. Para que não percamos esse bicho, estamos tirando uma licença especial para criação de bichos exóticos, e já tentamos o primeiro clone do Cramunhão (acabou ficando esse o nome de batismo do danado).
Com a clonagem, dele e da Dolly, certamente as coisas vão melhorar mais na caprino-ovinocultura mundial, e, o Brasil, campeão de asneiras, sairá na frente. Como vocês vêem, até com o coisa ruim conseguimos fazer dinheiro, assim, nessa sociedade ambiciosa, onde aproveita-se até coisas do além, só posso imaginar que um dia tudo isso poderá ter um trágico final. Os sinais já estão por aí, quando vê-se vender caráter na Câmara e Senado, um governo corrupto e enganador do humilde e sofrido povo brasileiro, que não quer esmolas que lhes roubam a dignidade, mas o trabalho que os enobrece.
Estamos lá na União, acreditando que, antes do COISA-RUIM ser capturado, ele havia contaminado uma turminha de um sindicato lá em SBC. Só isso explica tantas desavenças e o pipocar de denúncias, que por muito menos, tiramos outro tirano.
Com o exame de DNA no atual presidente e seus asseclas, creio que confirmaremos a contaminação. Não vamos propor a erradicação nos moldes de controle da febre aftosa (sic) pois acreditamos que existe cura. Prá quem dominou o CRAMUNHÃO isso é fichinha... Sugerimos frequentarem um curso na Escola de Formação de Caráter e Respeito à Propriedade Alheia (EFCRPC).
Mas, como o assunto aqui é o CHUPACABRA, coitado estava me esquecendo dele, de tão aborrecido que fico com o FEBEAPA, que estamos propondo o chamado "Dia de Campo" , muito comum em Veterinária, onde convidaremos a Fina-Flor da sociedade cientista, para debaterem o tema.
(FEBEAPA, para quem não sabe é "Festival de Besteiras que Assola o País", do Stanislaw Ponte)...
Onde eu estava mesmo?
Isso... Bem lembrado. Então, certamente aparecerão lá nesse dia, defendendo as mais absurdas teses, e buscando arrebanhar para si a crença de que desvendaram o tema Chupa-Cabras, pensando até em Prêmio Nobel, etc... enfim, dando asas à hipocrisia da sociedade. Mas bem sei que, os convidados dessa comunidade comparecerão em peso, pois esses sim entendem de coisas do além, assombrações, demos, etc... e ficarão rindo no canto, enquanto apreciam um bom churrasquinho com carne do mestiço da COISA.
Vejam só onde leva o assunto, já que foi perguntado, não poderia deixar de responder.
Bom, você já imaginou se tudo isso der certo, E os estudos comprovarem que deveremos substituir a população por essa espécie de bicho??? Acreditamos piamente, que essa raça estaria melhor representando o Criador, que os homens que hoje se dizem Sapiens, e que prenderam o salvador da natureza, que simplesmente buscava alimento chupando cabras velhas, já descartadas para produção.
Não estaria a natureza melhor protegida assim, afinal, de que serve a ciência se escraviza e impõe restrições ao acesso aos mais desprivilegiados e humildes, segregando-os como forma de falsa e hipócrita forma de seleção da espécie, permitindo destruir com a bandeira do progresso.
Mas, como sabemos ser isso quase impossível, pois leva em consideração destruir esses mesmos homens, irão, mais uma vez com grande hipocrisía, votar pela eliminação do ALIENÍGENA que com muito esforço conseguimos dominar.
Querem matar agora o nosso amado Chupa-Cabras, ele a quem tanto devemos, nós pobres ovino-caprinocultores, defensores da natureza e de uma produção que previlegia a pequena propriedade, tornando-a auto-sustentável com esses dóceis animais.
Porque tivemos a idéias de reunir cientistas, entendidos, políticos, estávamos indo tão bem com nossas amadoras e matutas experiências. Não vamos permitir que desviem o uso do nossa criação.
O Chupa-Cabras significa a nossa redenção.
Viva o Chupa-Cabras.
Amamos o chupa-cabras... assim, meu povo, agora que já sabem onde encontra-se o Chupa-cabras, ajudem-nos a mante-lo longe do interesse das espécies menos previlegiadas de inteligência... contribua para a grandeza da nova espécie que surgirá desta criatura, resgatando a dignidade animal, hoje tida como irracional, mas que virá a reinar em todos os cantos desse mundo depauperado e destruído, convivendo harmonicamente com outras espécies e mantendo ainda possível a existência de vida no mais privilegiado planeta do universo infinito.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
Causo retirado do Recanto das Letras, publicado em 03/06/2006:
http://recantodasletras.uol.com.br/contos/168850
Página do autor:
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/marcant53
MARCO ANTONIO PEREIRA
Espaço para postagens de minhas incursões despretenciosas no campo da literatura,contos, causos, música, manifestações de cunho político, artigos interessantes (identificados), discussões inteligentes, relacionamento social e profissional. "A mente que se abre para uma nova idéia, jamais volta ao seu tamanho original" (Albert Einstein)
sábado, 13 de novembro de 2010
Cavalgada infeliz, feliz saudade
“Livre filho da campina, eu ia bem satisfeito, camisa aberta no peito, pés descalços, braços nus...” (Meus oito anos - Casemiro de Abreu)
“Naquela tarde fagueira”, eu e o Cido, negrinho de vida humilde, meu amigo, resolvemos cavalgar...
O Cido, vivia com sua mãe, com o pai ou o avô, não me lembro bem, e moravam em uma casa de madeira, no meio de um pasto, na parte mais alta. Ficava na direção dos fundos do quintal e pomar de minha casa, e lá se chegava atravessando-se o pasto, propriedade da família Damiati, lá na Vila Porfírio.
Ficamos amigos porque, para cortar caminho até sua casa, passava pelo nosso quintal, além do que, freqüentávamos a mesma escola.
Falando desse local e cidade, o vento que ali soprava era uma coisa absurda. Uivava durante toda noite. Só para citar um fato, nessa época, cerca de 1964-65, houve um concurso para se atribuir um cognome ao município. Minha saudosa mãe, certa de ser a vencedora, atribuiu o cognome de “Cidade dos Ventos Uivantes”, numa alusão ao clássico de Emily Bronté (~1.850) e bastante apropriado a essa cidade, de árvores tortas, que apontam sempre o lado que o vento sopra. Depositou sua idéia esperançosa na urna. Afinal, havia um prêmio. Um prêmio, nas circunstâncias em que vivíamos era muito bem vindo. Meu pai tinha perdido todas as suas posses, e não foram poucas, e morávamos de aluguel, de forma muito modesta. Eu tinha uma formação e educação um pouco diferenciada, destarte minha condição econômica, herança do meu pai, que era extremamente culto, ensinava latim, grego, filosofia, português, política, economia. Eu era diferente, muito embora pobre e minha mãe esticava o salário do meu pai pelo mês todo, e vivíamos com grande parcimônia.
Torcíamos mais por ela que pela crença de que sua idéia era imbatível, tanta era sua convicção. Minha mãe perdeu, e frustrada dizia que Bernardino de Campos não poderia ter outro nome.
O cognome “Pérola do Planalto” foi o vencedor, mas ficou no ar um certo direcionamento, afinal, já nessa época, havia um certo nepotismo e privilégio às pessoas de maior tradição local, e o prêmio foi alegrar outra família. O fato é que em casa nunca achamos que esse cognome tinha ficado bem para a cidade. Semelhante pretensão quantos não tinham nessa época. Mas nada disso é importante. Não haveria de sermos nós os privilegiados. Certamente outros necessitados mereceriam muito mais, se esse fosse o critério. Parabenizamos até hoje a ganhadora. Mas isso é só para dimensionar minha existência naquela oportunidade. Hoje me orgulho de tudo isso. Tenho histórias para contar. E a grande herança recebida foi “nada” que não os conhecimentos mínimos necessários para conquistar tudo...
Mas vamos ao causo, verídico...
Eu tinha um grande respeito pela família do Cido, negros humildes, mas que guardavam algumas tradições, bem sei, que vinha lá dos lados da África. Batucava seu avô um tambor, rústico feito de pele de cabrito, o Cido também batucava, e entoavam cantos tribais afros, invocavam ancestrais e transformava o quintal em um misto de terreiro de forte espiritualidade e saudades, de algo distante no tempo... batuque dos negros bantos.
Os ventos, que passavam primeiro no casebre deles, levava aquele som primitivo até minha casa, passando pelo pasto. Eu tinha um misto de medo e respeito daquilo.
Demorava pegar no sono. Mas esse menino era de um enorme coração, amigo, necessitado, não pedia, a gente dividia também nossa miséria. Estudava comigo no Grupo Abreu Sodré.
O que se passou é que, todo menino lá eu era livre. Fazíamos aquilo que no momento “dava na veneta”, foi quando vimos uma égua pastando, resolvemos cavalgar um pouco.
Para nós não era necessário qualquer tipo de arreio, sela ou proteção. Montávamos “em pelo” e galopávamos o que a montaria agüentava. Bastava um cipó no focinho e tínhamos já a direção e domínio da montaria. O resto era vento no rosto e velocidade.
Eu na frente e o Cido na garupa. As crinas e o rabo ficavam em riste, num rápido galope. Que bom que era aquilo!!!
Mas, nem sempre essas coisas terminavam bem. Aquele dia, a égua, descontrolada, disparou o que podia pela trilha pasto afora, em direção à parte mais baixa do terreno, em uma ascendente que levava até uma nascente e um regato cristalino. Passou muito rápido debaixo de uma galhada que pendia, rente ao mato e em paralelo a uma cerca de arames farpados.
Erguíamos as pernas para fugir do arame, eu agarrava a crina do animal com toda força, equilibrávamos e acompanhávamos o movimento do galope ligeiro, feito um apache, dos filmes de índios, mas... de repente....Vupt. Foi como uma vassourada. Parecia filme de comédia, quando na corrida de perseguição, mocinho e bandido, sempre aparece um galho que derruba o cavaleiro, normalmente o mau. Mas, éramos bonzinhos, porque aquilo conosco. Simplesmente fomos inevitavelmente varridos de cima do animal, que continuou sua corrida invernada afora, já mais aliviada de peso.
Eu caí meio em cima do Cido e rolei na grama devido à força da inércia, e ria o quanto podia. Achei muitíssimo divertido o ocorrido.
Mas o Cido, coitado, caído, permaneceu quase sem se mexer, gemia muito e chorava segurando o braço.
Percebi então que era sério. Assustei-me. Ajudei-o a se levantar, e com muito sacrifício, fomos para a casa dele. Bom, depois dessas “artes”, não sei bem o que aconteceu com ele, porque, mal explicamos o ocorrido, eu dei no pé de lá e fui para minha casa. Mal dormi naquela noite. Só pensava no que tinha ocorrido, como eles fariam naquele meio de tanta necessidade, enfim, fiquei com uma enorme dor de consciência.
No dia seguinte, aparece o Cido, braço todo engessado. Já não podia ajudar sua pobre mãe.
Contou-me então que havia fraturado o braço em três lugares, e eu fiquei realmente muito triste e penalizado por isso.
Mas, o que se havia de se fazer. A vida tem que continuar com sua comédia...
Acho que sua mãe, zelosamente, deve tê-lo orientado, para que não andasse mais em má companhia... Depois desse fato, tivemos poucos encontros dignos de nota. Ele também estava se tornando um negro forte, cresceu e já tinha que trabalhar para sustentar a família.
Isso me lembra um pouco a composição “Morro Velho” do Milton Nascimento, que brilhantemente retrata o relacionamento social na fazenda e a diferença existente entre o branco e o negro, que até hoje é como uma mácula triste na história deste país.
Depois de muito tempo, voltando à cidade, encontrei o Cido, agora trabalhando arduamente na coleta de lixo, como funcionário público da prefeitura local.
Depois disso, nunca mais vi esse amigo e tenho muita saudade dele, e das minhas traquinagens por aí...
Se alguém vê-lo, diga-lhe que esses fatos me ajudaram a crescer feliz, a respeitar as pessoas, a não ter qualquer espécie de preconceito seja qual for, quando muito racial. Digam-lhe que ele é parte das minhas mais ricas lembranças, de um período, hoje vejo tão curto, mas rico de proezas e fatos, que insistem em aparecer nos meus sonhos.
Aprendi com ele também a respeitar culturas. Isso só me ajudou na minha luta, pois sempre me dei muito bem em qualquer situação, com qualquer povo, raça, credo, qualquer língua ou tendência política. Já rodei uma boa parte desse mundão. Minha meninice, mercê da sorte e infortúnios, me fez ter vontade de continuar a desafiar o tempo e o vento, a cavalgar nos mais indóceis corcéis, a desviar de obstáculos ou vencê-los com sabedoria ou fortuna, rumo à construção de uma sociedade justa.
Construí uma família, tive filhos, educo-os e preparo-os, para a continuidade do árduo caminho da construção de um mundo melhor e digno de todos.
Fico muito entristecido pelo fato de que o país continua a criar diferenças sociais, e as pessoas, cegamente ainda alimentam a cadeia de diferenças, como se essa terra abençoada não fosse, de forma impiedosa e inevitável, se alimentar igualmente da carne de todos que por aqui passam um dia...
Assim, nessa dicotomia, aqui ficam os feitos e não as lembranças dos feitores, que o tempo, pacientemente se incumbe de apagar da memória das pessoas, dos parentes, das lápides, dos mausoléus e pirâmides, que lentamente se vão desintegrando, num lento processo... Paciência do Criador, que continua criando, evoluindo, enquanto rezamos, achando que tudo está pronto, e culpamos a destruição sem noção de que Ele ainda está construindo sobre o destruído, adaptando, selecionado aquilo que será digno de usufruir disso tudo, num tempo futuro e dimensão que foge à nossa imaginação... quanta pequeneza...
Eu, bem ... eu, nesse futuro, estarei feliz no infinito, sorrindo na paz de quem contribuiu para a grandeza do universo e mero instrumento de Deus nessa medíocre passagem!!!!
Eia, cavalinho do tempo, eia... ventos, areias e poeiras cósmicas a acoitar meu rosto... meu semblante e aura iluminando as galáxias qual incomensurável cometa na maior órbita do universo, de infinita dimensão impossível de imaginar, desafiador das mais complexas teorias e desconhecidas dimensões, passando para o outro lado dos negros buracos e das enormes forças gravitacionais que a tudo absorve, compreendendo tudo o mais existente entre o céu e a terra, que a vã filosofia jamais soube me explicar... minha interminável cavalgada rumo a Infinita Bondade e Grandiosidade do Onipotente Deus, Todo Poderoso, Criador do Céu e desse incompreendido Universo...
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
retirado de minha página no Recanto das Letras, publicado em 03/06/2006: http://recantodasletras.uol.com.br/contoscotidianos/168840
Págia de Autor: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/marcant53
“Naquela tarde fagueira”, eu e o Cido, negrinho de vida humilde, meu amigo, resolvemos cavalgar...
O Cido, vivia com sua mãe, com o pai ou o avô, não me lembro bem, e moravam em uma casa de madeira, no meio de um pasto, na parte mais alta. Ficava na direção dos fundos do quintal e pomar de minha casa, e lá se chegava atravessando-se o pasto, propriedade da família Damiati, lá na Vila Porfírio.
Ficamos amigos porque, para cortar caminho até sua casa, passava pelo nosso quintal, além do que, freqüentávamos a mesma escola.
Falando desse local e cidade, o vento que ali soprava era uma coisa absurda. Uivava durante toda noite. Só para citar um fato, nessa época, cerca de 1964-65, houve um concurso para se atribuir um cognome ao município. Minha saudosa mãe, certa de ser a vencedora, atribuiu o cognome de “Cidade dos Ventos Uivantes”, numa alusão ao clássico de Emily Bronté (~1.850) e bastante apropriado a essa cidade, de árvores tortas, que apontam sempre o lado que o vento sopra. Depositou sua idéia esperançosa na urna. Afinal, havia um prêmio. Um prêmio, nas circunstâncias em que vivíamos era muito bem vindo. Meu pai tinha perdido todas as suas posses, e não foram poucas, e morávamos de aluguel, de forma muito modesta. Eu tinha uma formação e educação um pouco diferenciada, destarte minha condição econômica, herança do meu pai, que era extremamente culto, ensinava latim, grego, filosofia, português, política, economia. Eu era diferente, muito embora pobre e minha mãe esticava o salário do meu pai pelo mês todo, e vivíamos com grande parcimônia.
Torcíamos mais por ela que pela crença de que sua idéia era imbatível, tanta era sua convicção. Minha mãe perdeu, e frustrada dizia que Bernardino de Campos não poderia ter outro nome.
O cognome “Pérola do Planalto” foi o vencedor, mas ficou no ar um certo direcionamento, afinal, já nessa época, havia um certo nepotismo e privilégio às pessoas de maior tradição local, e o prêmio foi alegrar outra família. O fato é que em casa nunca achamos que esse cognome tinha ficado bem para a cidade. Semelhante pretensão quantos não tinham nessa época. Mas nada disso é importante. Não haveria de sermos nós os privilegiados. Certamente outros necessitados mereceriam muito mais, se esse fosse o critério. Parabenizamos até hoje a ganhadora. Mas isso é só para dimensionar minha existência naquela oportunidade. Hoje me orgulho de tudo isso. Tenho histórias para contar. E a grande herança recebida foi “nada” que não os conhecimentos mínimos necessários para conquistar tudo...
Mas vamos ao causo, verídico...
Eu tinha um grande respeito pela família do Cido, negros humildes, mas que guardavam algumas tradições, bem sei, que vinha lá dos lados da África. Batucava seu avô um tambor, rústico feito de pele de cabrito, o Cido também batucava, e entoavam cantos tribais afros, invocavam ancestrais e transformava o quintal em um misto de terreiro de forte espiritualidade e saudades, de algo distante no tempo... batuque dos negros bantos.
Os ventos, que passavam primeiro no casebre deles, levava aquele som primitivo até minha casa, passando pelo pasto. Eu tinha um misto de medo e respeito daquilo.
Demorava pegar no sono. Mas esse menino era de um enorme coração, amigo, necessitado, não pedia, a gente dividia também nossa miséria. Estudava comigo no Grupo Abreu Sodré.
O que se passou é que, todo menino lá eu era livre. Fazíamos aquilo que no momento “dava na veneta”, foi quando vimos uma égua pastando, resolvemos cavalgar um pouco.
Para nós não era necessário qualquer tipo de arreio, sela ou proteção. Montávamos “em pelo” e galopávamos o que a montaria agüentava. Bastava um cipó no focinho e tínhamos já a direção e domínio da montaria. O resto era vento no rosto e velocidade.
Eu na frente e o Cido na garupa. As crinas e o rabo ficavam em riste, num rápido galope. Que bom que era aquilo!!!
Mas, nem sempre essas coisas terminavam bem. Aquele dia, a égua, descontrolada, disparou o que podia pela trilha pasto afora, em direção à parte mais baixa do terreno, em uma ascendente que levava até uma nascente e um regato cristalino. Passou muito rápido debaixo de uma galhada que pendia, rente ao mato e em paralelo a uma cerca de arames farpados.
Erguíamos as pernas para fugir do arame, eu agarrava a crina do animal com toda força, equilibrávamos e acompanhávamos o movimento do galope ligeiro, feito um apache, dos filmes de índios, mas... de repente....Vupt. Foi como uma vassourada. Parecia filme de comédia, quando na corrida de perseguição, mocinho e bandido, sempre aparece um galho que derruba o cavaleiro, normalmente o mau. Mas, éramos bonzinhos, porque aquilo conosco. Simplesmente fomos inevitavelmente varridos de cima do animal, que continuou sua corrida invernada afora, já mais aliviada de peso.
Eu caí meio em cima do Cido e rolei na grama devido à força da inércia, e ria o quanto podia. Achei muitíssimo divertido o ocorrido.
Mas o Cido, coitado, caído, permaneceu quase sem se mexer, gemia muito e chorava segurando o braço.
Percebi então que era sério. Assustei-me. Ajudei-o a se levantar, e com muito sacrifício, fomos para a casa dele. Bom, depois dessas “artes”, não sei bem o que aconteceu com ele, porque, mal explicamos o ocorrido, eu dei no pé de lá e fui para minha casa. Mal dormi naquela noite. Só pensava no que tinha ocorrido, como eles fariam naquele meio de tanta necessidade, enfim, fiquei com uma enorme dor de consciência.
No dia seguinte, aparece o Cido, braço todo engessado. Já não podia ajudar sua pobre mãe.
Contou-me então que havia fraturado o braço em três lugares, e eu fiquei realmente muito triste e penalizado por isso.
Mas, o que se havia de se fazer. A vida tem que continuar com sua comédia...
Acho que sua mãe, zelosamente, deve tê-lo orientado, para que não andasse mais em má companhia... Depois desse fato, tivemos poucos encontros dignos de nota. Ele também estava se tornando um negro forte, cresceu e já tinha que trabalhar para sustentar a família.
Isso me lembra um pouco a composição “Morro Velho” do Milton Nascimento, que brilhantemente retrata o relacionamento social na fazenda e a diferença existente entre o branco e o negro, que até hoje é como uma mácula triste na história deste país.
Depois de muito tempo, voltando à cidade, encontrei o Cido, agora trabalhando arduamente na coleta de lixo, como funcionário público da prefeitura local.
Depois disso, nunca mais vi esse amigo e tenho muita saudade dele, e das minhas traquinagens por aí...
Se alguém vê-lo, diga-lhe que esses fatos me ajudaram a crescer feliz, a respeitar as pessoas, a não ter qualquer espécie de preconceito seja qual for, quando muito racial. Digam-lhe que ele é parte das minhas mais ricas lembranças, de um período, hoje vejo tão curto, mas rico de proezas e fatos, que insistem em aparecer nos meus sonhos.
Aprendi com ele também a respeitar culturas. Isso só me ajudou na minha luta, pois sempre me dei muito bem em qualquer situação, com qualquer povo, raça, credo, qualquer língua ou tendência política. Já rodei uma boa parte desse mundão. Minha meninice, mercê da sorte e infortúnios, me fez ter vontade de continuar a desafiar o tempo e o vento, a cavalgar nos mais indóceis corcéis, a desviar de obstáculos ou vencê-los com sabedoria ou fortuna, rumo à construção de uma sociedade justa.
Construí uma família, tive filhos, educo-os e preparo-os, para a continuidade do árduo caminho da construção de um mundo melhor e digno de todos.
Fico muito entristecido pelo fato de que o país continua a criar diferenças sociais, e as pessoas, cegamente ainda alimentam a cadeia de diferenças, como se essa terra abençoada não fosse, de forma impiedosa e inevitável, se alimentar igualmente da carne de todos que por aqui passam um dia...
Assim, nessa dicotomia, aqui ficam os feitos e não as lembranças dos feitores, que o tempo, pacientemente se incumbe de apagar da memória das pessoas, dos parentes, das lápides, dos mausoléus e pirâmides, que lentamente se vão desintegrando, num lento processo... Paciência do Criador, que continua criando, evoluindo, enquanto rezamos, achando que tudo está pronto, e culpamos a destruição sem noção de que Ele ainda está construindo sobre o destruído, adaptando, selecionado aquilo que será digno de usufruir disso tudo, num tempo futuro e dimensão que foge à nossa imaginação... quanta pequeneza...
Eu, bem ... eu, nesse futuro, estarei feliz no infinito, sorrindo na paz de quem contribuiu para a grandeza do universo e mero instrumento de Deus nessa medíocre passagem!!!!
Eia, cavalinho do tempo, eia... ventos, areias e poeiras cósmicas a acoitar meu rosto... meu semblante e aura iluminando as galáxias qual incomensurável cometa na maior órbita do universo, de infinita dimensão impossível de imaginar, desafiador das mais complexas teorias e desconhecidas dimensões, passando para o outro lado dos negros buracos e das enormes forças gravitacionais que a tudo absorve, compreendendo tudo o mais existente entre o céu e a terra, que a vã filosofia jamais soube me explicar... minha interminável cavalgada rumo a Infinita Bondade e Grandiosidade do Onipotente Deus, Todo Poderoso, Criador do Céu e desse incompreendido Universo...
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
retirado de minha página no Recanto das Letras, publicado em 03/06/2006: http://recantodasletras.uol.com.br/contoscotidianos/168840
Págia de Autor: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/marcant53
Assinar:
Comentários (Atom)